“Se eu não morresse pelo vírus, morreria de fome”, denuncia mulher que tratou covid-19 em hospital de Colorado do Oeste

Coronavírus

Dois casos de discriminação – um era apenas por suspeita – a pessoas infectadas pelo coronavírus na região Sul de Rondônia chamaram atenção nesta semana. O primeiro caso aconteceu em uma agência da Caixa Econômica Federal na cidade de Vilhena, quando uma atendente foi avisada por uma colega de que a pessoa que ela iria atender era portadora de coronavírus reagiu grosseiramente com um: “retire-se! Você está contaminada”.

A vigilante Simone de carvalho, humilhada por atendente na Caixa Econômica Federal, em Vilhena…

O Caso foi parar na polícia.

O outro caso aconteceu em Colorado do Oeste, há cerca de 100 quilômetros de Vilhena e é mais grave ainda, porque estão sendo acusados profissionais da Saúde, logo estes que tem recebidos todos os elogios pela dedicação, destemor e denodo com que estão na linha de frente do combate a pandemia.

Veja o que conta ao jornal eletrônico folhadosuloline.com.br a moradora da cidade de Colorado do Oeste – cerca de 850 quilômetros da capital do estado, Porto Velho – ao ficar internada para se tratar da covid-19 no hospital público da cidade. “Vive momentos de terror. Pensei que não sairia de lá viva”, disse

Em uma entrevista chocante, concedida ao FOLHA DO SUL ON LINE, Regiane Cristina Leite, de 32 anos, que venceu a covid-19, relatou os momentos de horror que viveu, não somente pelas complicações de saúde causadas pela doença, mas também pela forma como ela foi tratada no Hospital Municipal de Colorado do Oeste.

Regiane, que começou a se sentir mal no dia 08 deste mês, procurou um posto de saúde para a realização do teste rápido para Covid-19, após seis dias de sintomas, quando já não suportava mais as fortes dores de cabeça, febre alta, tosse e falta de ar.

… e Regiane Cristina Leite, de Colorado do Oeste. Duas atitudes vergonhosas para a humanidade

Mesmo apresentando todos os sintomas característicos da doença, inclusive perda do paladar, o teste rápido realizado no posto de saúde deu negativo.

Porém, por precaução, os servidores da unidade encaminharam a paciente para o hospital, para que passasse por um médico, local onde realizou outro teste rápido, que também deu negativo.

No entanto, Regiane relatou que o médico que a atendeu afirmou que ela teria que permanecer no hospital por três dias, por motivo de prevenção, o que não aconteceu, pois no dia seguinte, recebeu alta de uma médica que assumiu o plantão e alegou que se os resultados deram negativos, ela teria que ir para casa mesmo apresentando sintomas.

Já em casa, Regiane viu seu quadro se agravar e confessou ter desejado morrer. “A dor de cabeça era insuportável e ainda tinha a tosse constante e a falta de ar”, declarou.

Porém, crente de que não se tratava de Covid-19, já que os exames haviam dado negativo e ter recebido alta sem recomendações de restrição, Regiane afirmou ter voltado para o convívio com a família, chegando a dividir um pedaço de pizza na mesma noite, com uma amiga.

Já na tarde do dia 16, Regiane não suportou mais os sintomas e, amparada por uma amiga, retornou ao posto de saúde, onde repetiu o teste rápido e este deu positivo para Covid-19.

Conduzida ao hospital novamente, a mulher foi internada com pulsação baixa, embolia pulmonar e trombose, sendo necessário o uso de oxigênio.

“A partir de então fiquei trancada em um quarto sozinha, onde passei fome e muito medo; alguns funcionários eram muito gentis e levavam comida pra mim, mas teve dias que eu fui tomar café às 13h00, porque deixavam os alimentos em uma mesa no corredor e nem sequer me avisavam que estava lá, por medo”, relatou Regiane.

Quando questionada sobre como realizava sua higiene pessoal estando debilitada e fazendo uso de oxigênio, a mulher relatou: “Quando eu tirava o oxigênio e via que estava respirando um pouco melhor, sentava na cama, esperava a tontura passar e corria pra tomar um banho bem rápido sozinha, porque em alguns plantões ninguém entrava nem pra me ver”, revelou.

“Teve um dia que um enfermeiro me entregou o termômetro da porta pra eu mesma medir minha temperatura e depois não quis pegar de volta”, relatou Regiane.

Já no dia 22, Regiane refez os exames particulares e estes apresentaram resultado normal; foi quando recebeu alta com recomendações de repouso e hidratação.

Por fim, a mulher afirmou ser muito grata ao amparo que recebeu de alguns funcionários da unidade, porém, se diz muito triste com o trato que recebeu de outros. “Eu estava no balão de oxigênio e me tratavam mal porque tirava a máscara, mesmo estando sozinha no quarto, quando me sentia muito sufocada ou quando meu nariz doía por estar ferido”, relatou.

“Sei que os funcionários precisam se proteger e eu nunca me neguei a buscar minha comida no corredor, mas acho que deviam pelo menos me avisar. Sem contar que tinha dias que eu estava muito mal, vomitava muito porque os remédios eram fortes, então sentia meu estômago roer de tanta fome sem poder levantar para buscar a comida no corredor. Sem contar as conversas que ouvia e faziam eu me sentir um lixo”, declarou a mulher.

Agora se recuperando da doença, mas ainda sentindo muito cansaço, Regiane afirma: “se não fosse por uma amiga, que chegou a brigar com os funcionários para me levar comida, eu não sei o que seria de mim. Se tivesse que passar mais uma semana ali, poderia não morrer pelo vírus, mas morreria de fome”.

Em contato com Izabel Silva, diretora do hospital, que também se encontra em restrições, devido estar apresentando os sintomas da doença, ela se mostrou indignada com a situação.

Izabel afirmou ainda que em um dos dias de internação de Regiane, soube por uma médica de que a paciente havia ficado sem comer, devido os pacientes de outro quarto terem levado a alimentação pertencente a ela e tomou providências imediatamente, porém, acreditava que aquele tinha sido um caso isolado e que não havia se repetido, como relatou a mulher.

Já com relação ao fato da paciente ter recebido alta de uma médica sem aguardar os três dias requisitados pelo profissional que a internou, a diretora afirmou que cada profissional tem sua conduta e que isso não cabe a ela questionar, porém, a situação já foi informada ao diretor clínico para que seja solucionada.

“Realmente essa situação relatada pela paciente é absurda, e se de fato ocorreu, é preconceituosa e deve ser denunciada, sim. Hoje mesmo me reunirei com o secretário de Saúde para tomarmos providências”, concluiu Izabel.

Fonte: Folha do Sul

Autor: Lei Freitas

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